© Mafalda Mendes.
Ana Jotta
La Ronde
20.12.25—07.02.26
Existe uma espécie de poética movediça, irónica e incessantemente circundante naqueles que são os espaços construídos por Ana Jotta (Lisboa, 1946). Mais compreensível em contextos expositivos do que em obras singulares da artista (se é que tal distinção faz sentido no seu trabalho), o carácter interno (e não necessariamente íntimo) da sua obra desvela-se, ora, na causalidade de um contexto doméstico segundo a errância dos despojos, humores e trabalhos do dia-a-dia. Uma casa enquanto evidência genética ou labirinto mental; uma razão para a predisposição mnemónica de gestos e imagens raros. Quarta incursão nesta tipologia expositiva—precedida por Inventória (Casa São Roque, Porto, 2020), Une chambre en ville (Festival d’Automme, Paris, 2020) e beaucoup, peu, rien (Marian Goodman, Paris, 2025)—, La Ronde compreende-se na relação entre aproximação e recolhimento às qualidades inatas do trabalho da artista, evidenciando, por consequência, algumas das mais peculiares determinações formais, plásticas e até mesmo hierárquicas da sua obra. Como o carrossel que lhe dá nome (homónimo à obra de fim de século de Arthur Schnitzler e à da década de 1950 de Max Ophüls), La Ronde partilha de uma semelhante, ainda que dicotómica, ácida alegria contagiante.
Camas, molduras, lâmpadas, livros e campainhas pontuam o espaço como sussurros distantes de uma vivência que se pressente ter existido sempre entre as paredes que os rodeiam. Nous rentrons chez toi, chez moi, Oh oui, ce merveilleux pays, Où il n’y a pas d’heures, Où il n’y a ni jours ni nuits, Ce pays merveilleux, Où l’on dort sans le savoir (Voltamos para tua casa, para minha casa, Ah sim, esse país maravilhoso, Onde não há horas, Onde não há dias nem noites, Esse país maravilhoso, Onde dormimos sem saber) grava a artista numa cerâmica luminescente que, sob a clausura de uma antiga e recôndita lareira, se derrama em cabos de eletricidade até à forma redonda e verdadeira de um pão fresco (no fim do dia, à chacun son pain). Simultaneamente oníricos e frivolamente honestos, são vários os momentos em que as junções de objetos aparentemente distantes a qualquer tipo de entendi- mento formal se aproximam na construção de pequenas cenas narrativas—por vezes domésticas, por vezes de uma estranheza atípica a um universo convencional. Demonstrando o aguçado e sorrateiro modo com que Jotta complica e simplifica (com a assertividade do mesmo gesto) um tipo de relação absolutamente reconhecível e transponível a qualquer memória familiar, as obras que perfazem esta exposição subvertem um entendimento coletivo (frequentemente associado ao lar) numa série de instâncias onde a simples presença de um elemento disruptor inquieta a fortaleza do todo.
Implicando a imagem de uma roda-viva (sugerida, aliás, pela reincidente presença circular na exposição), são várias as estruturas que se assemelham a maquetes ou resquícios de pensamentos cuja imagem materializada parece inscrever-se em escalas e comportamentos alheios à sua conceção natural. Muitas vezes recorrendo ao desenho debruçado sobre a superfície das paredes, as imagens escorregam, acoplam-se e fogem de um lugar que não se nega ao desconforto. Como toupeiras, observamos as evidências da sua presença sem, contudo, as conseguirmos agarrar. Jotta é uma malabarista, é a alavanca de um engenho construído sobre a premissa da surpresa. Un escabeau de l’eau, un sceau, un marteau des sciseaux, un pinceau, c’est beau! un styleau, un crayeau! (Um es- cabelo, Água, Um balde, Um martelo, Uma tesoura, Um pincel, Que bonito!, Uma caneta, Um lápis!). Com a travessura de um quebra-cabeças endiabrado e ritmado segunda uma estrutura acelerada e valsada, as suas palavras rimam pela manipulação da sua grafia, assim os objetos desconstruídos e reorganizados segundo uma vontade deveras autoral. Formalmente complexa, plasticamente rebelde e intimamente imprevisível e errante, La Ronde é a verificação plena de uma mente que não cessa de se questionar. Ça ira!
Eva Mendes