© 2026-SYSTEMA-Visual-Vue générale de la salle des fêtes du palais des Beaux-Arts ; Œuvres des élèves exposées aux murs, sur des tables et des socles, 1930-Courtesy Marseille City's Archives.jpg

Préface à l’Escalier


Ana Jotta, António Mesones, António Palolo, Bruno Cidra, David Maranha, Francisco Queirós, Francisco Tropa, Jorge Queiroz, José Escada, Manuela Martins, Mingyu Wu, Projecto Teatral, Rui Calçada Bastos, Sara Bichão e Vasco Lucena

28.08.26—30.08.26

Compilado para SYSTEMA, Palais Carli, Marseille.

Com o apoio de:

No messieurs-dames acredita-se no humor. Desde a primeira apresentação que se pretendeu recuperar a vitalidade de um humor enlutado, prestes a extinguir-se. Falamos de um humor com a mesma qualidade temerária que atribuímos ao exercício sério e digno de um trabalho, incluindo nele a sobrevivência de uma espécie de truque, de prestidigitação, que o catapulta para um paradigma diferente daquele da museologia. De certa forma mais livre, trata-se de um humor melancólico na sua essência. Muito antes de qualquer associação a Marcel Duchamp, a indicação do nome (messieurs-dames) surge, muito descomplexadamente (como, aliás, muitos outros projetos viriam a surgir), a partir da relação estabelecida entre a descoberta de uma alcunha atribuída a Anton Prinner no início do século XX—Monsieur Madame—, e a expressão francófona bonjour, messieurs-dames, frequentemente utilizada em apresentações. Mais tarde, a constatação de que as iniciais de Marcel Duchamp eram as mesmas que as do nome do projeto (md), convergiu numa já intricada série de trocadilhos que vieram a permear a sua identidade. A mesma lógica de trama aplica-se à vontade de recuperar—por entre os meandros da História da Arte e dos acervos esquecidos—trabalhos, ideias e enredos por demais abandonados ou não reconhecidos, aproximando-os daqueles que se pretende ressalvar na contemporaneidade.

Perfazendo, sensivelmente, um ano de atividade, o messieurs-dames completa sete exposições: duas de natureza histórica, baseando-se em arquivos de artistas (Fotocop, de António Palolo e Para figuras livres, de Vasco Lucena), face a três de caráter contemporâneo (Buddha’s Hand Lemon, de Bruno Cidra; La Ronde, de Ana Jotta; e Visitação, do Projecto Teatral) e a duas com um pendor interdisciplinar (Tic tac toe, de David Maranha, cruzando peças sonoras com objetos escultóricos; e Dancing around the house, um breve ciclo de dança). Apesar das suas bem-vindas diferenças autorais, desvelam-se na sua justaposição e linearidade um conjunto de afinidades causais significativas, como a recorrência da variação e da sequência em Palolo e Maranha ; o contraste entre movimentos escultóricos coreografados em Cidra e a exaltação física do corpo que improvisa na programação de dança; o equívoco linguístico e a surpresa formal em Jotta e Lucena; ou a própria indeterminação do trabalho do Projecto Teatral face às restantes demonstrações escultóricas ou performativas, mantendo este uma forte relação com o teatro. Nenhuma destas exposições precisa de outra para sobreviver, como tão-pouco nenhuma foi pensada para acolher a seguinte, mas encontram-se, não obstante, numa engenhosa máquina de observação que privilegia a abertura do trabalho em detrimento da sua clausura, como na expectativa de desvendar um dispositivo de espionagem oculto.

Pelo facto do messieurs-dames não ter desenvolvido, à data, nenhuma exposição coletiva, tratou-se o convite endereçado pela Systema como a oportunidade de compilar aquela que é a primeira apresentação de grupo dos artistas que já trabalharam com o projeto. Também pela razão do seu aniversário, propôs-se a colaboração com alguns dos artistas que virão a expor no messieurs-dames no próximo ciclo de programação, também aqui contemplando apresentações de natureza histórica e contemporânea. São estes os trabalhos de António Mesones, Francisco Queirós, Francisco Tropa, Jorge Queiroz, Mingyu Wu, Rui Calçada Bastos e Sara Bichão, bem como arquivos do espólio de Manuela Martins, contemplando obras suas e de José Escada. O conjunto de vanguardas que informa o projeto ditou que fosse igualmente clara a presença que o mundano, o enigmático e o absurdo têm perante os trabalhos que são reunidos, debruçando-se intimamente sobre as lógicas de pensamento, edição e escrita de Marcel Duchamp, Jean-Jacques Pauvert, André Breton, Raymond Roussel e Francis Ponge. A exposição desenhou-se, portanto, à imagem de um arquivo—um prefácio a um objeto. Por outro lado, a demonstração de uma série considerável de impressões plásticas, poéticas e formais no total dos trabalhos em exposição, levou a que a razão da poesia das coisas fosse, para além da memória de uma influência, o percurso mais generoso a tomar. 

Em 1948, Ponge publica a primeira edição de Proêmes. Encontra-se, na página quinze da publicação, o texto que veio dar nome à presente exposição, PRÉFACE AUX SAPATES. Poder-se-ia dizer que a razão pela qual os sapates são aqui substituídos pelas escadas provém de uma vontade de relacionar um dos mecanismos arquitetónicos mais estudados na História da Arte com a proposta inferida. Poder-se-ia justificar a sua presença com a narrativa bíblica de Jacob ou com a mística norte-americana do Slant Step. Poder-se-ia fazer sentido de algo que foi simplesmente homenageado, como é o caso do fascínio por uma extraordinária escadaria de madeira em caracol no edifício da exposição. A escada como ferramenta e dispositivo, sinónimo último de Duchamp. Préface à l’Escalier enquanto estrutura que antecede a partida, enquanto aura que antecede o objeto ou minuta que pressagia a passagem. As obras em exposição pontuam o palácio sem qualquer pretensão de narrativa ou conceito. São trabalhos que anuem a proximidades e elos casuais e que principiam, de alguma forma, a compreensão do messieurs-dames enquanto projeto de pensamento. São apresentados pequenos ilusionismos e segredos, breves truques e engenhos sem função aparente. Os objetos distribuem-se pelo palácio na expectativa de conseguirem sinalizar um tom, de trabalharem entre si e para si. Qualquer um deles torna-se objet trouvé, ademais, a própria exposição o é. 

Eva Mendes

Next
Next

Dancing around the house