© messieurs-dames

Dancing around the house


Cláudia de Serpa Soares e David Maranha, Connor Scott, Bruno Brandolino e Romain Beltrão Teule

13.06.26—27.06.26

When we finally premiered Walkaround Time in Buffalo in March 1968, Marcel walked up on the stage afterward, I thought very handsomely. He passed Jasper on his way from his seat—Jasper had refused to bow, of course—and Marcel said to Jasper: “I’m just as scared as you are.”

Merce on Marcel: An interview with Merce Cunningham, in Dancing around the Bride: Anthology, p.259

Em 1968, Marcel Duchamp sobe ao palco após a estreia de Walkaround Time, um espetáculo desenhado por Merce Cunningham (coreografia) e Jasper Johns (cenografia) a partir de partes da sua obra. Fora num jantar em casa dos Duchamps em Nova Iorque que Johns abordara Cunningham, numa primeira instância, e Duchamp, numa segunda, acerca da possibilidade de construção de um cenário para dança a partir do seu Le Grand Verre (La mariée mise à nu par ses célibataires, même). Após uma tímida abordagem, a dúvida de Marcel fora simplesmente: “E quem fará todo trabalho?”, à qual Jasper responderia que ele próprio ficaria encarregue dele, resultando num satisfatório “Oh, fine!”. 

Walkaround Time é uma das mais memoráveis colaborações exercidas entre três dos cinco artistas que, juntamente com John Cage e Robert Rauschenberg, perfazem a exposição Dancing around the Bride (Philadelphia Museum of Art, 2013). Celebrando não só os frutos das suas amizades, e justamente por serem amigos, Dancing around the Bride foi também uma reunião de trabalhos onde a chance, o acaso e o readymade tomavam um papel transversal a grande parte das obras—Duchamp e a Noiva (Bride) em 1912 enquanto possível primeiro estudo para o Le Grand Verre que principia em 1915, Cage e as chance operations a partir do I Ching, Cunningham e o lançamento de dados para determinar as sequências de movimentos, etc. Som, imagem e corpo unidos num conjunto extraordinariamente complexo de práticas e determinações artísticas que viriam a assinalar a que é uma das mais notáveis exposições acerca da influência do Dada na arte do séc. XX. É a partir do seu desenvolvimento em linhas espirais em torno da Noiva, que a dança—no caso de Merce Cunningham, Walkaround Time—parece entrelaçar (referenciando) corpo e objeto na linguagem concreta do acaso.

Por estas e outras razões, batizámos este ciclo de dança no messieurs-dames, Dancing around the house, o primeiro de dois momentos que encerram o primeiro ano de programação do messieurs-dames. Um aceno linguístico direto relativamente à exposição abordada, sem dúvida, mas também uma apropriação singela à escala de um espaço que, de esvaziado, pressupõe apenas o entendimento do seu perímetro como matriz causal para o seu domínio. A dança e o corpo impregnados na sua total autonomia e independência, não apresentados segundo contextos expositivos ou plasticamente informados por nenhum autor que os recebe, antes verdadeiramente emancipados na sua dimensão poética. Apenas a casa (vis-à-vis a Noiva) precede um certo tipo de confronto sujeito-objeto e lhes convoca uma condição pré-definida, por certo, mas também elástica e experimental. 

Foi proposto a quatro bailarinos com práticas de criação que trabalhassem o espaço segundo a sua total vontade—abrindo portas para a apresentação de estudos para criações futuras, ensaios para criações atuais ou mesmo a possibilidade de criar algo inédito para o contexto presente. Em todos os casos parece ter acontecido, como aliás seria provável, uma espécie de amálgama de todas as hipóteses. Por ordem cronológica, Apparently de Cláudia de Serpa Soares em colaboração com David Maranha (a ser apresentado no dia 13 de Junho), é uma improvisação estruturada que ocupa o espaço do jardim do apartamento. Com uma duração aproximada de duas horas, trata-se do reconhecimento de um espaço frequentemente ocupado pelo público que visita as exposições. Por sua vez, é também ele o lugar de onde habitualmente se olha para dentro da exposição, concluindo aqui um momento de inversão de lógicas expositivas e demais funcionais. Neste caso, a plateia estará sentada no espaço interior, anuindo ao exterior enquanto ecrã para a apresentação. É de realçar, também, que esta colaboração diz respeito a um encontro hoje viável apenas pela chance de um encontro anterior, a exposição e ciclo de performances que David Maranha programou no espaço há exatamente um ano volvido—Tic tac toe. 

No dia 20 de Junho, Connor Scott apresentará Waltzer, parte de um processo criativo que conhecerá uma versão final aquando da sua estreia em 2027. Trabalhando a hélice e a espiral enquanto movimentos intrínsecos ao corpo, Connor parte da tradição britânica do Northern Soul (particularmente popular na década de 1970) para criar uma coreografia individual dentro do espaço expositivo. Como um bailarino solitário, deambulará pelas diferentes salas do apartamento ensaiando diferentes limites físicos entre o corpo que dança e o público que, por oposição a um cenário de espetáculo tradicional, se encontrará circundante e muito próximo de si. 

Bruno Brandolino apresentará uma co-criação com Romain Beltrão Teule, Terrains Fantôme: uncomprehending stranger (dia 27 de Junho). Em ambas as práticas dos dois artistas se afigura central a construção de ficções e narrativas onde a possibilidade de fabulação conduz a um género muito próprio de encontro entre realidade e alteridade. Para este capítulo de Terrains Fantôme, será revelado um conjunto de registos (por vezes acompanhados de narração oral e física) onde impressões acerca da assombrologia e fantasmagoria se desvelam perante o espetador.  

Eva Mendes

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